Professores e alunos debatem o conflito Rússia-Ucrânia

Os desdobramentos do conflito entre Rússia e Ucrânia, que no próximo dia 24 completará um mês de duração, foram abordados pelos professores do Carmo em uma mesa redonda, realizada dia 21 de março, com participação dos alunos do Ensino Médio e do 9º Ano do Ensino Fundamental.

O contexto histórico

Claudenilson da Silva e Ozeias Medeiros, professores de História, fizeram a introdução ao assunto, destacando a herança compartilhada pelos dois países, quando Kiev, hoje capital da Ucrânia, estava no centro do primeiro Estado eslavo, a chamada Rússia de Kiev, berço tanto da Ucrânia quanto da Rússia, até chegar ao cenário atual.

Professores do Carmo durante a mesa redonda: informação e interatividade (clique para ampliar)

Ozeias destacou que a região que hoje está em conflito foi desenvolvida pelos vikings, que uniram os povos locais e formaram um reino unificado, movimento liderado por Vladimir I, monarca pagão de Novgorod e grão-príncipe de Kiev. “É com base nesse contexto histórico que, hoje, o presidente russo Vladimir Putin afirma que russos e ucranianos são um único povo, um único todo”, explicou. “Sabemos que a Rússia tem um ponto fraco, que são suas fronteiras em relação ao restante da Europa. O que Putin almeja é proteger sua área de fronteira, não deixando que a Otan entre na região”.

“De um jeito ou de outro, a Ucrânia já está em uma situação complexa. E existem questões econômicas preocupantes em relação a isso”, disse Claudenison.

A relação de aproximação da Ucrânia com a Otan, destacaram os professores, foi o estopim do conflito. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) é um organismo supranacional, cujo objetivo é garantir a segurança de seus países-membros por meio de ações específicas. “Se um país membro da Otan é atacado, os demais precisam se colocar a favor deste país”, apontou Claudenilson. “E se Vladimir Putin ataca os países membros da Otan, podemos começar a falar em uma terceira guerra mundial, o grande medo da sociedade global”, complementou. “Putin alega que pode ter uma base inimiga no próprio quintal, por assim dizer”, concluiu Ozeias.

A questão energética

Ellin Cristina Neves, professora de Geografia, falou sobre o papel da energia no conflito, entre outros pontos, e as consequências para o Brasil.

“A questão da energia vem sendo umas das pautas principais do debate na Europa há muito tempo. A geografia lá é bem diferente da que temos no Brasil – aqui podemos aproveitar várias matrizes para a geração de energia, como a eólica e a solar, ao contrário da Europa, que depende da Rússia, por exemplo, para a compra de aproximadamente 40% do gás que consome”, informou Ellin, frisando que Vladimir Putin usa o gás e o petróleo para manobras políticas, e que o compartilhamento de gasodutos também é uma questão que influencia as divergências entre os dois países.

Evento contou com a participação efetiva dos alunos (clique para ampliar)

Já Juliana Lopes, professora de Química, lembrou que a Rússia é, também, uma potência nuclear. “Além disso, quanto o gás, que é fonte de energia não renovável assim como o petróleo, tem poder calorífero muito grande, benéfico para o aquecimento das casas na Europa, mas que também gera um problema de poluição. E quando cortam o gás para a Europa, os países que possuem reservas de carvão mineral irão usá-las para aquecimento, e isso aumentará o chamado efeito estufa, criando um problema ambiental e o consequente aumento da temperatura”, explicou.

As questões sociais

As questões sociais da guerra foram tratadas por Jennipher Taytsohn, professora de Sociologia/Ética e Cidadania. Segundo ela, por trás de todos os aspectos abordados por seus colegas, ainda há mais um, e não menos importante: o poder das ideias. “Ideias se pluralizam, se espalham e promovem movimento, distribuição de poder. Existem agentes da sociedade civil e das entidades dentro dos países que estão se posicionando e construindo o que se chama hoje de guerra”, disse Jennipher. “A guerra não é só sobre poderio bélico, mas também ideológica”.

A professora também tratou da cobertura da mídia sobre o conflito, apontando o peso que a ideia da invasão carrega. “Vamos pensar em nossa casa. Se há um invasor em nossa casa, ele será bem recebido? Não, afinal ele é um intruso, alguém que não tem o poder de estar ali. Então o papel do invasor e termos como ‘invasão’ carregam um sentido pejorativo por natureza. E quando a mídia hegemonicamente nos passa uma ideia de invasão, e aqui não defendo nenhum dos lados, devemos pensar no seu papel político. A neutralidade pode e deve ser um caminho a ser percorrido, mas todos nós, inclusive as instituições da imprensa, somos carregados de princípios ideológicos”, apontou.

A Coordenadora Pedagógica Ana Clara M. Coutinho conduziu os debates (clique para ampliar)

Ao explicar à aluna Caroline Figueiredo, da turma 901 do 9º Ano do Ensino Fundamental, o conceito de guerra híbrida, Jennifer complementou: “É uma guerra também para fomentar ideais. A Rússia tem usado com mais eficiência que a Ucrânia o argumento discursivo – quando aponta que existe um movimento crescente que transforma a Ucrânia num país dominado por neonazistas, o que está dizendo que a guerra é justa, porque vai impedir que essa ideologia nociva se expanda, mesmo tendo o presidente ucraniano, em resposta, ter declarado que é de origem judia. Existe uma disputa narrativa, condicionada”, argumentou.

Os resultados   

Os alunos do Ensino Médio do Colégio Nossa Senhora do Carmo participaram com perguntas e muita atenção às informações que estavam sendo trocadas, sobretudo quanto aos desdobramentos do conflito para o Brasil.

Caroline Figueiredo, da turma 901 do 9º Ano do Ensino Fundamental: evento passou uma nova visão para os alunos (clique para ampliar)

“Achei interessante o evento, vai gerar uma maturidade em nós, uma nova visão. Pelo menos é o meu caso! Pude participar perguntando sobre o preconceito que uma guerra gera, como foi o caso da Alemanha, que por muito tempo teve a imagem prejudicada por causa do nazismo. E o que vemos na internet também me preocupa, comentários maldosos e preconceituosos que podem influenciar outra guerra, porque os países são muito nacionalistas”, disse Caroline.

“O resultado do evento nos mostra que atividades como essa são essências para que os alunos possam entender assuntos que estão na pauta da sociedade mundial e os afetam de alguma forma. É preciso traduzir estes conteúdos para atrair a atenção destes jovens estudantes”, apontou Ana Clara M. Coutinho, Coordenadora Pedagógica do Ensino Fundamental – Anos Finais e do Ensino Médio.

Confira aqui todos os temas abordados durante a mesa redonda.

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